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CRMV-RS entrevista Leonardo Melgarejo sobre fenômeno da "nuvem de gafanhoto"
25-06-2020

A nuvem de gafanhotos que levou o governo federal a declarar estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina tem levantado uma série de dúvidas a respeito do fenômeno. Para ajudar a entender o fato, o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul (CRMV-RS) entrevistou o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante do Movimento Ciência Cidadã (MCC), Mestre em Economia, Doutor em Engenharia de Produção, integrante da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e coordenador adjunto do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (FGCiA).

 

CRMV-RS – O que leva à formação de uma nuvem de gafanhotos?

Leonardo Melgarejo – Depende do tipo de agroquímicos. Todos alteram relações simbióticas e provocam desequilíbrios ambientais, matam ou alteram comportamentos e metabolismos de plantas, fungos, bactérias e animais. Geram desequilíbrios com várias implicações. O que ocorre é que esses insetos têm uma característica muito interessante. Eles têm um comportamento individual e, quando as condições são favoráveis para uma grande multiplicação, eles mudam o comportamento e os hormônios alteram o tamanho e a força das asas para que a população grande migre para um outro lugar onde se encontre comida. E eles têm características que permitem até dois ou três ciclos por ano no qual migram em massa. Essa migração em massa pode permitir um voo de até 150km por dia. 

 

CRMV-RS – O uso errado de agroquímicos causa quais efeitos?

Melgarejo – Condições favoráveis ao metabolismo e a reprodução. Intervalos ótimos e prolongados de temperatura e umidade.  Ausência de predadores e ciclo natural. Atingida a maturidade, diante de superpopulação, tão grande que não pode ser sustentada pelos recursos locais, eles migram.

 

CRMV-RS –  Qual é o impacto ambiental desse fenômeno?

Melgarejo – O impacto ambiental depende de vários fatores. Os gafanhotos são polígafos, ou seja, comem de tudo que é verde. Onde a nuvem baixar, a perda será total. Penso que isso deva ser encarado como um problema social, coletivo.  O Estado deve assumir essas perdas que acontecerão em algum local. Por outro lado, onde eles descerem, haverá alimento de sobra para outros organismos, que estarão esperando. E os gafanhotos também podem fazer oviposição (postar ovos) naquele local. Quando esses ovos eclodirem, haverá novo estrago na vegetação e nova “festa dos pássaros”. Dependendo das condições de temperatura, umidade e predação dos insetos jovens, pode, no futuro, surgir ali outra revoada. Portanto, trata-se de questão de interesse coletivo. 

 

CRMV-RS – Qual a forma correta de se prevenir ou combater?

Melgarejo – A prevenção exige conhecimento a respeito do comportamento dos insetos. O que forma uma superpopulação? Obviamente são as condições favoráveis à multiplicação. Os gafanhotos seguem o padrão de todos os seres vivos: em condições ótimas de temperatura e humidade, o que inclui alimentação abundante, multiplicam-se. Se não houver controle para a superpopulação, ela decai naturalmente ou migra. Os animais e insetos com esta capacidade sempre fazem isso. Então, se não dominamos a temperatura e a umidade, restam as outras formas de controle e prevenção, que são naturais, por pássaros, pequenos animais, aranhas e outros insetos.  No entanto, o controle biológico deles é feito especialmente por aves, então se entende que no sumiço dos passarinhos eles tenham uma maior possibilidade de alcançar essa condição de população massiva e que migra. As aranhas também matam, os pequenos mamíferos, a mulita, os bichinhos do campo, zorrilhos…  Todos eles comem gafanhotos e estão desaparecendo com o avanço da soja em monocultivo – e também com o uso de venenos que atacam algumas culturas e também os predadores desses insetos. Os erros de manejo humano, os crimes ambientais e a eliminação de predadores causam prejuízo para todos.  Com este desejo de aplicar veneno, alguns podem até ganhar dinheiro, mas, a médio prazo, todos perdem, no mínimo, porque todo esse veneno vai parar na água.

 

CRMV-RS – Essa nuvem pode afetar os rebanhos de alguma forma?

Melgarejo – O rebanho gaúcho inteiro, não. Mas pode devastar o campo nos locais onde pousar. A alimentação dos animais de produção, naquele ambiente, ficará super prejudicada. E, se jogarem veneno de avião, será pior, porque também morrerão todos os pássaros, pequenos mamíferos, sapos lagartos e peixes que comerem gafanhotos envenenados.





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